A cabeça de Valentin

Dizem que “quando se fecham portas se abrem janelas”.

Dizem que “em tempo de guerra não se limpam armas”.

Dizem que “rir é o melhor remédio”.

Dizem tanta coisa, e tanta coisa se diz que talvez seja melhor “desdizer”.

Talvez seja melhor, “dar o dito por não dito” para que a cabeça não (se) fique quando tanta (falta de) cabeça nos pergunta se ela tem de ficar? Talvez seja melhor “não comentar”…

“A cabeça tem de ficar”? Escolhemos afinal dizer… “Sim”!! (mesmo que, como noutras épocas, as cabeças acabem por rolar– e tão cíclica é a história!). Trabalhar estes textos é voltar aos tempos das “europas aguerridas” pela mão de um alemão que dizia o nome “Heil” e se “esquecia” do resto[1], que foi tomado por nazi e nunca se filiou em partido nenhum, que era “acarinhado” pelo ditador quando subtilmente o criticava.  Um autor que conhecendo bem as lutas (e travou tantas que morreu esquecido) não se confinou a teatralizá-las, mas preferiu os quotidianos… as vidas simples que sufocadas, pelo riso se libertam. (que o riso nem sempre é coisa fácil nos tempos que correm… )

Abrimos as janelas das portas que nos fecharam (janelas de luz estas…), sujámos as “armas” o mais que pudemos (pois as palavras continuam a ser as nossas armas mais fortes), e apostámos no vosso riso perante e nossa “sisudez” nesta guerra pela vida pensante, pela Cultura que teimam em tentar cortar, nesta dignidade que nos tentam retirar “afogando-nos em aquários” e colocando-nos em “gaiolas” – peixes em água a transbordar.

Alguém ao fundo “incomodado” repete a pergunta: “e a cabeça, tem de ficar?”

Carla Dias


[1]    “Trocávamos as mais recentes piadas antinazistas, como aquela sobre Karl Valentin, o comediante de Munique que mesmo com o comício monstro em andamento em Nuremberg aparecia diante do pano, levantava o braço direito e gritava: “Heil… que droga, agora esqueci o nome dele!” (ECKARDT, 1996, citado por BATTISTELLA, Roseli (2007), O Jovem Brecht e Karl Valentin – Universidade de Florianopolis, pag.34

( do programa do espectáculo “E a cabeça tem de ficar?”)

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