“E a cabeça tem de ficar?” estreia dia 11 de Maio

O homem é o único animal que ri.

Se Aristóteles o disse, é porque deve ser verdade.

A actualidade de Karl Valentin é a actualidade de todo o humorista. Não é a crítica social, a ausência de valores da sociedade contemporânea e lugares mais ou menos comuns do género, que estão na base do interesse pela obra de Karl Valentin.  O humor nunca é circunstancial. É por isso que não envelhece. A piada revisteira dominante domina por pouco tempo. Domina à custa de truques e de preconceitos.

Não é a originalidade que se procura; pelo contrário, é o reconhecimento do saber antigo. Claro que não é isto que o cómico “revistoso” afirma procurar. De facto, é isso que procura. É isso que o seu público quer encontrar. Cada um ri como pode e do que pode.

O humor não provoca os preconceitos com a simples intenção de obter uma comicidade ridícula, mas, pelo contrário, procura eliminar esses preconceitos ou evidências, isto é, tem uma intenção inovadora perante as situações.

É por isso que, quando desaparecem esses preconceitos, a comicidade perde o seu ponto de apoio e vai desaparecendo. Se a virtude do D. Quixote se limitasse à crítica das novelas de cavalaria,  o seu valor esgotar-se-ia nessa época.

O humor, em contraste com a superficialidade  cómica, vai adquirindo a sua dimensão à medida que se vai despojando dessa exterioridade aparente. O humor vai ganhando com o tempo.

No humor, o mundo torna-se estranho. O homem vê-se como o animal desterrado que é, e começa a reflectir sobre aquilo que até então tinha considerado como certo. É como se olhássemos para nossa a existência terrestre de um ponto de vista marciano. Aparecem os paradoxos. O que é trivial passa a ser estranho, distante.

Uma certa tradição (Bergson) acerca destas coisas de piadas e comédias associa o sorriso ao humor e o riso ao cómico. O sorriso estaria para o humor, assim como o riso para a comédia. Se quisermos falar de Valentin não podemos estar limitados a estas  classificações. Com os desvios da lógica e da linguagem, com Valentin, rimos e sorrimos. Muito de cada. Também aqui Valentin nos afasta (sem querer ou não, isso não vem ao caso) destes lugares filosóficos, dando razão ao empenhamento humorístico de exterminar os lugares mais ou menos comuns, de viver nos baldios que separam as perguntas legítimas das perguntas fora do casamento. É nesse e só nesse espaço que tem sentido perguntar se a cabeça, de facto, terá de ficar.

Manuel Sanches

(do programa do espectáculo)

"E a cabeça tem de ficar", Alexandra Diogo

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