A Patente em cena na Casa de Teatro de Sintra

“D’Andrea – Quer que eu lhe diga que acredito? Então digo-lhe que acredito! Está bem?

 

Chiarchiaro – Não, senhor! O senhor tem motivos para acreditar de verdade. De ver-da-de! E deve demonstrá-lo, instruindo o processo!”

adaptação de “A patente” de Pirandello

Nas deambulações que tenho feito do Pirandello deparo-me com uma constante busca de verdade nas mentiras que se vão criando à nossa volta. Primeiro a procura da verdade de um homem que entre a consciência de si e a consciência que os outros têm dele, sucumbe ao “grotesco” das “situações criadas”[1] tornando-se um excluído. Depois a busca pessoal de inclusão através de  uma  “patente” que o torna “enquadrado”.

"A Patente"

"A Patente", a partir de Pirandello;65ª produção da Compª de Teatro de Sintra; actores, Alexandra Diogo e Nuno Machado

Exemplificando: não sabemos ao certo se Chiarchiaro é ou não “agoirento” ao ponto de “matar pintassilgos”, sabemos sim que “instruindo o processo” este homem legitima uma possível “mentira” em verdade transformando a adversidade em emancipação – transformando a verdade colectiva na sua própria sobrevivência instituindo uma verdade diferente- a verdade que mentida pode ser verdadeira. Eis o que me parece a tentativa de Pirandello: buscar na “verdade” as “várias verdades” simulando-as, para que o contacto com as mesmas nos faça pelo menos duvidar de nós e tecer de uma forma clara a “multiplicidade” dos sujeitos. Através das “patentes” que “instruímos”  conhecemos (tal como a personagem) “a terrível certeza de que a vida é um fluir constante e não pode deter-se, agarrar-ser, ver-se,(ou) materializar-se (…)”[2]tal qual uma vida feita teatro para contar a própria vida – uma verdade feita mentira para encontrar a própria verdade.

Carla Dias


[1]In prefácio da 1ª edição de “Um, ninguém e cem mil” (Ed. Presença) em que Gisela Moniz descreve que “a ironia (…) permite apreender a dualidade, que molda a reflexão: as situações criadas atingem frequentemente as raias do grotesco, mas a acção dissolvente da ironia abre caminho a um conhecimento mais sólido do ser humano, assim como a uma verdadeira compaixão e ternura por ele.”

[2]do mesmo prefácio citado anteriormente

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