Sobre o “Nevoeiro”_2 (em cartaz até 29 maio)

Uma poética do nevoeiro

Actualmente, as pessoas vêem nevoeiros, não porque
haja nevoeiros, mas porque poetas e pintores lhes ensinaram o misterioso
encanto de tais efeitos.

Oscar Wilde (1889). O declínio da mentira. Intenções
– Quatro Ensaios Sobre Estética
. Lisboa: Cotovia, 1992.

Nevoeiro
de Eugene O’Neill é uma peça de 1914 num só acto e faz parte de uma série de
peças do autor que, directa ou indirectamente, se inspiram no naufrágio do
Titanic (1912). A situação dos náufragos sobreviventes num bote salva-vidas, à
deriva no mar alto, é especialmente apta para criar situações dilemáticas, do
ponto de vista ético e humano, e suficientemente coesa, do ponto de vista da
concentração do espaço, do tempo e da acção, para suscitar um desenvolvimento
dramático clássico. Por outro lado, é expectável que a situação de
sobrevivência, acompanhada dos habituais desesperos, decisões in extremis,
traições, arrependimentos, e surpresas, funcione como uma poderosa alegoria de
situações quotidianas que nos são próximas.

Esta peça,
contudo, oferece-nos muito mais do que uma situação limite de sobrevivência, a
começar pelos seus dois caracteres principais, o Homem de Negócios e o Poeta, e
sobretudo, a meu ver, pela alegoria que decorre da consideração do título. No
teatro, como nesta peça e, como Platão facilmente aceitaria, na vida, encontramo-nos
muitas vezes no nevoeiro e na espera angustiada que o nevoeiro se levante,
nunca sendo certo que aquilo que finalmente vemos com nitidez, se é que vemos
alguma coisa, é aquilo que realmente desejamos ver e está lá, aquilo que julgamos
ver e não está lá ou outra coisa, entre as duas primeiras, que é apenas mais
nevoeiro: uma nitidez que nos cega ou o lamento dos mortos. É sobretudo esta
última dimensão do texto de O’Neill que o Teatro da Garagem adopta, na
encenação de Carlos J. Pessoa.

Recusando uma
abordagem realista, Carlos J. Pessoa propõe uma leitura expressionista e
intermedial, através da utilização da parafernália tecnológica e imagética,
procurando tomar o nevoeiro, que aqui está mais na dificuldade em centrar o
olhar, na dispersão dos pontos de vista, na decisão entre ver uma coisa e
deixar de ver outra, como conceito formal e arte poética da própria encenação e
da representação. Não temos propriamente nevoeiro, mas vemos nevoeiro e temos
uma experiência de imersão num espectáculo enevoado em que as duas personagens
do texto de O’Neill são executadas por vários actores que, por sua vez, são
interpelados por acções, imagens, vozes, e pessoas que também estão no nevoeiro
ou para lá dele.

David Antunes

Nevoeiro_foto ensaio2

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