sobre o “nevoeiro”_1(em cartaz até 29 maio)

O fogo de empédocles

Cosi
allora il fuoco primordiale, serrato nelle membrane
con sottili veli si acquatta nella rotunda pupila

( Tradução de Enrico
Colli in Apollineo e Dionisiaco de Giorgio Colli)

Eis o fogo
primordial nos teus olhos com véus subtis mergulhando na rotunda pupila.

Sintra é para mim o lugar cujo
espírito me acende.

Essa embriaguez devolve-me um
sentido de pertença, não, necessariamente, ao álbum das recordações, mas antes
ao Nevoeiro do reconhecimento. Este reconhecimento, que se faz por insistência,
por força de uma vontade, por vezes perigosa, já que a consciência dos escolhos
não determina uma liberdade capaz, isto é, livre, permite causar alguma comoção.
Mas não é disso, ainda, que se trata.

Para lá da memória e das emoções
está o conhecimento, aquilo que é a marca primeira — impressão da experiência
que se confunde com ela própria. Ora as vantagens da devolução da experiência
primordial são evidentes: se por um lado o espaço e o tempo parecem estar
contidos no intuito de uma vantagem táctica, por parte de quem experimenta, num
desígnio febril de imortalidade, por outro, o que é mais importante, creio,
faculta o ensejo de um acesso comum, disponível para todos — liberdade livre
que não se esgota na percepção dos escolhos mas se difunde na generosa acepção
de uma partilha, como uma praia ser a rocha dividida que se reencontra.

Este desejo sobre um melhor modo de
estarmos juntos não representa uma paz perpétua mas, como tudo o que se
idealiza, um estado transitório de inspiração, um momento que podemos ganhar,
ou perder, na materialização, multiplicada, de obras raras, um pouco como
florescer exuberantemente num dilatado intervalo de milénios.

Sendo certo que a humanidade é muita
antiga e que a nossa vida, brevíssima, não chega para acautelar o essencial,
parece-me que não devemos deixar de espreitar a oportunidade, ou de, pelo
menos, sonhar com ela, de conhecer a liberdade livre, a inspiração plena do
fogo primordial revisitado.

Uma
última palavra para o mergulho comum do Teatro da Garagem com o Chão de Oliva
neste Nevoeiro: que o reencontro da
Luz nos anime na lembrança dos caminhos cruzados.

Carlos J. Pessoa

Amadora, 2011-05-03

Nevoeiro_foto ensaio

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: